Naquela manhã, recebi um telefonema misterioso. Em algum compartimento da minha bolsa, o celular gritou por 2 longos minutos. Musiquinha chata. Carteira, chocolate, guarda-chuva, HQ, 25 centavos, pen-drive, elástico de cabelo e chiclete velho. Nada de celular. Alguém realmente queria falar comigo e não tinha idéia do monstro que estava despertando.
Bom dia.
Do outro lado da linha, uma voz alcoólica de 67 anos me chamou pelo nome. Muito em alemão, um pouco em português, pediu para me encontrar às 14h do outro lado da cidade. Chuva quente, trânsito lento, estômago vazio e o desafio paulistano de fazer 60km em 2h. Certo, respondi curiosa. No mínimo vai servir de adubo.
Boa tarde.
A senhora poderia me informar onde fica a Rua Dias D’Ambrosio, por favor? Apostaria minha mão direita em como eu já havia percorrido a cidade inteira, ponta a ponta. Estava íntima de cada árvore, cada par de tênis na rede elétrica, cada viúva na varanda. 13h30, e faltava muito. Tenho certeza de que já vi a placa dessa cartomante. Ou não. O que não falta por aqui são espertinhos.
Socorro.
Meia hora atrasada, toquei a campainha. Uma voz de mulher perguntou quem era. Gabriela. Destrancou o portão e disse para eu esperar no corredor. Não ousei desobedecer. Quase instantaneamente, senti uma pontada gelada dentro do estômago. Em questão de segundos, vi minha cara estampada na primeira página de todos os jornais. Pobre garota. Era tão jovem.
Gabriela?
E as manchetes desapareceram. Era uma senhorinha de um metro e meio de altura, cabelos pretos na altura dos ombros, muito lisos. Reconheci a voz do interfone. Venha por aqui, disse, virando as costas e sumindo escada abaixo. O respeito que aquele pequeno pedaço de carne impunha era incrível. Apertei o passo para não ficar para trás. Em toda minha vida, eu nunca havia visto nada igual àquela sala na qual entramos. Centenas de relógios forravam as paredes, que, entre um diâmetro e outro, se revelavam escuras. Todas as cores, todos os tamanhos, todos os tipos. Relógios de plástico barato, de aço, de madeira importada. 14h42. Todos eles escancaravam o quanto eu estava atrasada. O cheiro de mofo duelava à altura do barulho dos tic tacs e dos cucos. Não era possível prestar atenção em nada.
Virgínia?
Nem precisei olhar. Era o mesmo sotaque alemão que havia despertado meus ímpetos homicidas horas antes. Pediu para Virgínia sair da sala, o que achei um pouco cruel. Estava começando a simpatizar com a baixinha. Ficamos a sós. Eu, o velho alemão, suas centenas de relógios cobertos de mofo e minhas manchetes de jornal. Tic. Tac. Tic. Tac. Ele começou a se aproximar. Fechei o punho. Segurou minhas mãos e desabou em lágrimas. As lágrimas mais sinceras que já vi.
Tic. Tac. Tic. Tac.
Sem dizer uma palavra, me entregou um embrulho e correu o mais rápido que suas pernas de 67 anos aguentaram. Nunca voltou.