Era quase noite. Sapatos cor de entranhas dilaceravam a paisagem da velha cidade, caótica. Zyprexa não sabia por onde havia estado. Ela nunca sabia. Seus dedos alaranjados envolviam uma pequena gaita que, sem fôlego, deixava escapar uma bela canção. Era Cash. Aposto que o filho da puta do Cash também não sabia por onde havia andado quando pariu esta maravilha, pensou. Ele nunca sabia. Zyprexa parou. Estava diante de um imenso prédio no centro da cidade. Meteu as mãos nos bolsos em busca daquele papel amassado que havia guardado, às pressas, enquanto dobrava habilmente as esquinas sobre seus sapatos cor de entranhas. Entranhas sujas de São Paulo. Estava no bolso direito da jaqueta de couro, dividindo espaço com sua 44. Mais tarde, minha querida, eu prometo, sussurrou. Começou a subir as escadas, estava no lugar certo. Os cabelos negros, ensopados pela chuva ácida que acabara de cair, escorriam-lhe pelas maçãs do rosto. Tirou os sapatos ensangüentados e lambeu os dedos. Tocou levemente o gatilho, a 44 gritou de prazer. Seus belos olhos, cada vez mais vivos. A velha cidade, cada vez mais morta.