A Rua Vermelha

Antes de chegar a hora, deixou tudo para trás. Disseram que ainda era cedo, mas, certamente, nenhum deles sentiu a ânsia matutina inundando a garganta, dia após dia. Rasgou os papéis, jogou vinagre e engoliu tudo. Quem sabe assim não conseguiria, de algum modo, recuperar o tempo perdido? Continuou andando largo, mãos nos bolsos. Sua juventude afiada brincava docemente ao redor das pupilas desérticas, que, havia tanto tempo, não viam chuva. E aquele não era o momento mais apropriado para se deixar invadir assim, tão facilmente, por memórias encharcadas. A ventania lambia seu rosto e cada milímetro daquelas idéias malucas que transbordavam por seus poros. Mas havia decidido, segundos antes, não lutar. Não desta vez. Se a vida é uma, queria o excesso. Excesso de falhas, excesso de acertos. E foi assim que percebeu, naquela enchente silenciosa, que o único limite era a palpitação azul debaixo de sua pele. Continuou sorrindo largo, mãos nos bolsos.

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