Palavras Empoeiradas de 2002

dezembro 18, 2009

Agora sim encontrei algo realmente antigo.

Depois de procurar muito pelo zine que eu escrevia com alguns amigos em meados de 2002, acabei desistindo. Acho provável que, depois de tanto tempo, tenham deletado. Uma pena, tinha tanta coisa escrita ali. Nós, no alto dos nossos 13 anos, armados com nossas guitarras, achávamos que realmente seríamos capazes de mudar o mundo. E, talvez, o grande erro tenha sido parar de acreditar.

De qualquer forma, estava lendo o meu velho diário e, entre os muitos textos ali escritos, um me chamou a atenção. Não lembro exatamente o que estava acontecendo na minha vida no dia 02/03/2002, mas, de certa forma, senti saudade daquela menina cheia de sonhos, que hoje é uma mera estranha.

Sabe, minha vida é uma grande interrogação.
E isso é bom? 
Sim, isso é ótimo.
Foda-se a rotina e as programações.
Foda-se os ponteiros.
Prefiro me guiar pelo sol e pelo vento…
Porque eu odeio o fato de ter que acreditar que cada um tem um livro pronto desde o dia em que respirou a droga do oxigênio pela primeira vez.
É… eu não acredito muito nisso.
Eu quero reciclar meus próprios papéis e sujar as mãos de tinta pra fazer desenhos que só eu vou entender.
E pendurar em alguma parede por aí…
Eu não sei o que tem ali na frente.
A única coisa que eu sei é que eu não quero mais pisar dentro de pegadas tão gastas…

Palavras Empoeiradas de 2004

dezembro 18, 2009

Certo.

Estou com uma pilha gigantesca de trabalho a ser feito e, infelizmente, não tive tempo para sentar e escrever nos últimos dias.
Como qualquer um, tenho contas a pagar.

Mas, para não deixar o 2h37AM abandonado enquanto eu termino as minhas longas obrigações, aqui vai um texto que eu escrevi aos 15 anos de idade, mais exatamente em dezembro de 2004. É tudo muito simples e muito tosco, mas é exatamente o que eu estou sentindo neste momento recheado de desejos de feliz Ano Novo e promessas para a próxima volta em torno do Sol.

Ano Novo = Acre = Filhote de pomba
E o sol nasce outra vez e você continua o mesmo.
Não, você não criou super-poderes nem vai deixar de sentir dor.
Você vai chorar muito ainda.
E falar muita merda.
Vai ficar com raiva quando te derem faca de passar manteiga para cortar o bife.
Vai comer o brigadeiro do fundo da panela.
Vai cair na piscina e passar frio.
Vai ser acordado por mosquitos e passar alguns minutos tentando matá-los, e, depois de perder o sono, vai desistir.
Louco da vida, vai se jogar na cama e pensar em como uns bichos tão pequenos conseguem fazer um gigante como você ficar com vontade de arrancar a própria orelha.
E no outro dia vai acordar todo picado.

Vai dizer coisas por impulso.
Vai se arrepender.
Vai escorregar na frente de todo mundo.
Vai ficar feliz quando começar a tocar aquela música foda no rádio.
Vai sonhar.
Vai ter pesadelos.

E a verdade é que todos os dias são iguais aos outros.

Todos eles têm os mesmos segundos.
Começam laranjas e meio frios, e depois ficam claros, tão claros que começam a desbotar e a ficar laranja de novo.

Sempre foi assim.
Sempre vai ser.

Todos os dias, desde que existe mundo, as ondas quebram na areia e as árvores balançam com o vento.
Tudo igual.
Sempre.

Nas manhãs de Páscoa, nas noites de Natal, na virada do ano, do século, do milênio.
Tudo igual.
No seu aniversário e no meu.
No exato momento em que nós estivermos morrendo.
Tudo, curiosamente, será igual ao que sempre foi.

Por isso que o Ano Novo = Acre = filhote de pomba.
É só uma grande invenção.

Ontem era exatamente igual a hoje, que é exatamente igual a amanhã.
E o ciclo segue. 

Quem faz os dias serem diferentes somos nós mesmos.
A mágica toda que as pessoas tanto procuram nessas “datas milagrosas” está em nossas mãos.
Ela sempre esteve em nossas mãos.

E você não precisava ter esperado uma semana pra chegar o Ano Novo e prometer a si mesmo que sua vida ia melhorar.
Você só perdeu uma semana de uma vida melhor, trouxa.

Então faça agora, porque é sempre primeiro de janeiro!

Juventude Mordida

dezembro 8, 2009

Naquela manhã, recebi um telefonema misterioso. Em algum compartimento da minha bolsa, o celular gritou por 2 longos minutos. Musiquinha chata. Carteira, chocolate, guarda-chuva, HQ, 25 centavos, pen-drive, elástico de cabelo e chiclete velho. Nada de celular. Alguém realmente queria falar comigo e não tinha idéia do monstro que estava despertando.

Bom dia.

Do outro lado da linha, uma voz alcoólica de 67 anos me chamou pelo nome. Muito em alemão, um pouco em português, pediu para me encontrar às 14h do outro lado da cidade. Chuva quente, trânsito lento, estômago vazio e o desafio paulistano de fazer 60km em 2h. Certo, respondi curiosa. No mínimo vai servir de adubo.

Boa tarde.

A senhora poderia me informar onde fica a Rua Dias D’Ambrosio, por favor? Apostaria minha mão direita em como eu já havia percorrido a cidade inteira, ponta a ponta. Estava íntima de cada árvore, cada par de tênis na rede elétrica, cada viúva na varanda. 13h30, e faltava muito. Tenho certeza de que já vi a placa dessa cartomante. Ou não. O que não falta por aqui são espertinhos.

Socorro.

Meia hora atrasada, toquei a campainha. Uma voz de mulher perguntou quem era. Gabriela. Destrancou o portão e disse para eu esperar no corredor. Não ousei desobedecer. Quase instantaneamente, senti uma pontada gelada dentro do estômago. Em questão de segundos, vi minha cara estampada na primeira página de todos os jornais. Pobre garota. Era tão jovem.

Gabriela?

E as manchetes desapareceram. Era uma senhorinha de um metro e meio de altura, cabelos pretos na altura dos ombros, muito lisos. Reconheci a voz do interfone. Venha por aqui, disse, virando as costas e sumindo escada abaixo. O respeito que aquele pequeno pedaço de carne impunha era incrível. Apertei o passo para não ficar para trás. Em toda minha vida, eu nunca havia visto nada igual àquela sala na qual entramos. Centenas de relógios forravam as paredes, que, entre um diâmetro e outro, se revelavam escuras. Todas as cores, todos os tamanhos, todos os tipos. Relógios de plástico barato, de aço, de madeira importada. 14h42. Todos eles escancaravam o quanto eu estava atrasada.  O cheiro de mofo duelava à altura do barulho dos tic tacs e dos cucos. Não era possível prestar atenção em nada.

Virgínia?

Nem precisei olhar. Era o mesmo sotaque alemão que havia despertado meus ímpetos homicidas horas antes. Pediu para Virgínia sair da sala, o que achei um pouco cruel. Estava começando a simpatizar com a baixinha. Ficamos a sós. Eu, o velho alemão, suas centenas de relógios cobertos de mofo e minhas manchetes de jornal. Tic. Tac. Tic. Tac. Ele começou a se aproximar. Fechei o punho. Segurou minhas mãos e desabou em lágrimas. As lágrimas mais sinceras que já vi. 

Tic. Tac. Tic. Tac.

Sem dizer uma palavra, me entregou um embrulho e correu o mais rápido que suas pernas de 67 anos aguentaram. Nunca voltou.

Rainha de Espadas

dezembro 7, 2009

Foi o gosto amargo de gasolina e areia que a acordou. A mistura improvável brilhava dolorida debaixo do sol do Novo México, onde o vento seca a alma e sela os olhos. Tentou levantar, mas caiu antes que pudesse lembrar seu nome. Yucca, sussurrou com lábios de sangue e whiskey, espalhando seu encanto por todo o deserto. Desesperada, cavou em busca de qualquer memória que a explicasse como foi parar ali. Um grande vazio. Olhou em volta, e, com os olhos ainda semicerrados, reconheceu sua motocicleta largada na beira da estrada. Mais nada. Voltou os olhos para si. Uma bala escondida em sua perna direita e um saco de dinheiro escapando pela bota. É, desta vez não foi tão grave, pensou, enquanto contava seu tesouro. Ignorou a dor e conseguiu andar alguns metros. Ligou o motor, limpou o canto da boca e soltou os cabelos. Mais um dia no inferno. Hora de caçar.

Entranhas sujas de São Paulo

dezembro 4, 2009

Era quase noite. Sapatos cor de entranhas dilaceravam a paisagem da velha cidade, caótica. Zyprexa não sabia por onde havia estado. Ela nunca sabia. Seus dedos alaranjados envolviam uma pequena gaita que, sem fôlego, deixava escapar uma bela canção. Era Cash. Aposto que o filho da puta do Cash também não sabia por onde havia andado quando pariu esta maravilha, pensou. Ele nunca sabia. Zyprexa parou. Estava diante de um imenso prédio no centro da cidade. Meteu as mãos nos bolsos em busca daquele papel amassado que havia guardado, às pressas, enquanto dobrava habilmente as esquinas sobre seus sapatos cor de entranhas. Entranhas sujas de São Paulo. Estava no bolso direito da jaqueta de couro, dividindo espaço com sua 44. Mais tarde, minha querida, eu prometo, sussurrou. Começou a subir as escadas, estava no lugar certo. Os cabelos negros, ensopados pela chuva ácida que acabara de cair, escorriam-lhe pelas maçãs do rosto. Tirou os sapatos ensangüentados e lambeu os dedos. Tocou levemente o gatilho, a 44 gritou de prazer. Seus belos olhos, cada vez mais vivos. A velha cidade, cada vez mais morta.

A Rua Vermelha

dezembro 4, 2009

Antes de chegar a hora, deixou tudo para trás. Disseram que ainda era cedo, mas, certamente, nenhum deles sentiu a ânsia matutina inundando a garganta, dia após dia. Rasgou os papéis, jogou vinagre e engoliu tudo. Quem sabe assim não conseguiria, de algum modo, recuperar o tempo perdido? Continuou andando largo, mãos nos bolsos. Sua juventude afiada brincava docemente ao redor das pupilas desérticas, que, havia tanto tempo, não viam chuva. E aquele não era o momento mais apropriado para se deixar invadir assim, tão facilmente, por memórias encharcadas. A ventania lambia seu rosto e cada milímetro daquelas idéias malucas que transbordavam por seus poros. Mas havia decidido, segundos antes, não lutar. Não desta vez. Se a vida é uma, queria o excesso. Excesso de falhas, excesso de acertos. E foi assim que percebeu, naquela enchente silenciosa, que o único limite era a palpitação azul debaixo de sua pele. Continuou sorrindo largo, mãos nos bolsos.


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